quarta-feira, maio 02, 2007

O tempo que os amigos emigrantes me deixam...


Em pequeno fascinavam-no obras, em geral… Durante anos pensou que os bébés eram fabricados em betoneiras e que estas tinham também sido utilizadas pelos Americanos para enviar a Lassie ao espaço. Dizia que quando fosse grande queria ser trolha e escrevia ao Pai Natal a pedir areia e cimento... Aterrorizava a mãe quando se mascarava de lápis atrás da orelha, quando todos os outros meninos escolhiam o Super-homem, envergonhando-a em frente às outras mães quando respondia que a sua série preferida era a de anúncios da Coca-Cola Light.
Diz-se que na sua festa de 19 anos mandou o carro novo para a sucata, quando um outro carro preto (salvo erro um Seat Ibiza, com jantes de 17”, um touro autocolante atrás, dois dados pendurados no retrovisor, estofos vulgares, 4 personagens lá dentro, dois dos quais aciganados, 2 riscos na porta do lado direito, 1 do lado esquerdo, um pneu a precisar de ar e falta de água no limpa pára-brisas) se meteu à sua frente em plena VCI, quando ia a 75km/h e a conversar sobre política internacional…
Cosmopolita, organizado e vaidoso, tornar-se-ia nos primórdios do século XXI num dos grandes promotores da metrossexualidade, passando rapidamente do rigor do corte de cabelo aos 17 cremes por cm2 de corpo. A mudança começou a surtir os seus efeitos e a sua reputação apenas seria abalada pelo boato relativo ao seu método de regar grelhados quando acampava (sim, ele acampava!!!)
A sua grande desilusão foi ao mesmo tempo o seu maior sucesso. Com 23 anos aceitam-no numa empresa de construção e só aí se apercebe que, mesmo depois de 18 anos a copiar, não o deixam pegar no martelo ou no cinzel e muito menos em maquinaria pesada! Afinal de contas tem que passar a vida a lidar com homens, suados e a cheirar a tudo menos a verniz, com um capacete que lhe estraga o penteado, umas botas em tudo diferentes dos seus “Lottusse” e um horrível colete que não deixa ver o quão impecavelmente passada está a sua camisa...
Não conseguindo suportar mais os seus suspiros por uma vida mais “condigna”, é sugerida a sua transferência para o estrangeiro pelo seu chefe directo. Recusa Angola por “não perceber "o" estrangeiro”, frustrando assim as expectativas patronais de o enviarem para outro continente. Surge logo após a hipótese Irlanda como tábua de salvação, sendo o mar encarado como “uma privilegiada primeira defesa contra qualquer tentativa de regresso" (os amigos agradecem).
Ainda há pouco ouvi rumores irlandeses sobre um mitra Tuga que tenta vender micro-machines a miúdos de 10 anos, rói as unhas sempre que está stressado, agradece em qualquer loja com um “thank you very, veeeeery much” e bebe cerveja em copos de 20cl. Impecável!...
Diz-se que não me ligou nos anos...

2 Comments:

At 14:41, Blogger Bernardo79 said...

Dudita...

Tenho de confessar... chorei de felicidade... chorei de alegria genuína em verificar que me tens em tamanha estima.
Só me ocorre uma palavra que consiga reunir em si todo o emaranhado de sentimentos que me despertas...

IMPECÁBEL!!!

E já agora... amei a foto... Seninha certo?

B

 
At 16:11, Blogger Shamrock said...

Eduardo,

Eu moro com um gajo que é 'tal e qual... mas essa do acampar era impossivel...

A vida dele aqui é muito dificil. Não há uma única loja de alta-costura em Limerick, além disso as ovelhas não gostam de italianos stressados e as vacas têm uma estranha atracção por metrosexuais... não tem sido fácil...

Quando cá voltares eu apresento-t'o... vocês vão-se dar bem

Abraço

 

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